sábado, 11 de julho de 2009

A FORMAÇÃO DO POVO BRASILEIRO

Como descreve O Antropólogo Darcy Ribeiro no livro " O POVO BRASILEIRO " lançado em 1995.





"[...] Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos. Como descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre servos da malignidade destilada e instilada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria."
"A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista." (1995, p.120)

E diz ainda:

Os brasileiros se sabem, se sentem e se comportam como uma só gente, pertencente a uma mesma etnia. Essa unidade não significa porém nenhuma uniformidade. O homem se adaptou ao meio ambiente e criou modos de vida diferentes. A urbanização contribuiu para uniformizar os brasileiros, sem eliminar suas diferenças. Fala-se em todo o país uma mesma língua, só diferenciada por sotaques regionais. Mais do que uma simples etnia, o Brasil é um povo nação, assentado num território próprio para nele viver seu destino.



Os brasileiros formam uma nacionalidade indissociavelmente ligada ao Estado brasileiro, ou seja, a característica fundamental de um brasileiro é sua ligação com a República Federativa do Brasil. Como é característica dos países do Novo Mundo o povo brasileiro não forma um grupo étnico homogêneo, não existindo - na Antropologia tradicional - uma etnia brasileira.

No período que se seguiu à descoberta do território brasileiro por Portugal, durante boa parte do século XVI, o vocábulo “brasileiro” foi dado aos comerciantes de pau-brasil, designando exclusivamente o nome da profissão. No entanto, desde muito antes da independência do Brasil, em 1822, tanto no Brasil como em Portugal, já era comum se atribuir o gentílico "brasileiro" a uma pessoa nascida ou residente na então colônia.


ESTATISTICAS:

Há atualmente 183,9 milhões de brasileiros, segundo o relatório final da Contagem da População do IBGE, feita em 5.435 municípios com até 170 mil brasileiros. Nos últimos sete anos, o Brasil ganhou mais 14 milhões de brasileiros, o que corresponde a um estado do porte da Bahia. Entre as Grandes Regiões, todas as regiões apresentaram crescimento.


A população brasileira é formada principalmente por descendentes de povos indígenas, colonos portugueses, escravos africanos e diversos grupos de imigrantes que se estabeleceram no Brasil, sobretudo entre 1820 e 1970. A maior parte dos imigrantes era de italianos e portugueses, mas houve significante presença de alemães, espanhóis, japoneses e sírio-libaneses.


O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) classifica o povo brasileiro entre cinco grupos: branco, negro, pardo, amarelo e indígena, baseado na cor da pele ou raça. A última PNAD (Pesquisa Nacional Por Amostra de Domicílios) encontrou o Brasil sendo composto por 93.096 milhões de brancos, 79.782 milhões de pardos, 12.908 milhões de negros, 919 mil amarelos e 519 mil indígenas.

Comparado a outros censos realizados nas últimas duas décadas, pela primeira vez o número de brancos não ultrapassou os 50% da população. Em 2000, os brancos eram 53,7% no censo. Em comparação, o número de pardos cresceu de 38,5% para 42,6% e o de negros de 6,2% para 6,9%.[3] De acordo com o IBGE, essa tendência se deve ao fato da revalorização da identidade histórica de grupos raciais historicamente discriminados. A composição étnica dos brasileiros não é uniforme por todo o País. Devido ao largo fluxo de imigrantes europeus no Sul do Brasil no século XIX, a maior parte da população é branca: 79,6%[4]. No Nordeste, em decorrência do grande número de africanos trabalhando nos engenhos de cana-de-açúcar, o número de pardos e negros forma a maioria, 62,5% e 7,8%. No Norte, largamente coberto pela Floresta Amazônica, a maior parte das pessoas é de cor parda (69,2%), devido ao importante componente indígena[6]. No Sudeste e no Centro-Oeste as porcentagens dos diferentes grupos étnicos são bastante similares.

De acordo com a Constituição Brasileira de 1988, racismo é um crime inafiançável e condenável à prisão.


Devido a diversos grupos de imigrantes, os brasileiros possuem uma rica diversidade de culturas, que sintetizam as diversas etnias que formam o povo brasileiro. Por essa razão, não existe uma cultura brasileira homogênea, e sim um mosaico de diferentes vertentes culturais que formam, juntas, a cultura brasileira. É notório que, após mais de três séculos de colonização portuguesa, a cultura brasileira é, majoritariamente, de raiz lusitana. É justamente essa herança cultural lusa que compõe a cultura brasileira: são diferentes etnias, porém, todos falam a mesma língua (o português) e, quase todos, são cristãos, com largo predomínio de católicos. Esta igualidade lingüística e religiosa é um fato raro para uma cultura como a brasileira.

Embora seja um país de colonização portuguesa, outros grupos étnicos deixaram influências profundas na cultura nacional, destacando-se os povos indígenas, os africanos, os italianos e os alemães. As influências indígenas e africanas deixaram marcas no âmbito da música, da culinária, no folclore e nas festas populares. É evidente que algumas regiões receberam maior contribuição desses povos: os estados do Norte têm forte influência das culturas indígenas, enquanto certas regiões do Nordeste têm uma cultura bastante africanizada.

Quanto mais à sul do Brasil nos dirigimos, mais europeizada a cultura se torna. No Sul do país as influências de imigrantes italianos e alemães são evidentes, seja na culinária, na música, nos hábitos e na aparência física das pessoas. Outras etnias, como os árabes, espanhóis, poloneses e japoneses contribuíram também para a cultura brasileira, porém, de forma mais limitada.


IDIOMA NACIONAL:

Países e regiões onde a língua portuguesa é falada ou possui status oficial.O português é a língua oficial e falada por toda a população. O Brasil é o único país de língua portuguesa das Américas, dando-lhe uma distinta identidade cultural em relação aos outros países do continente. Ainda é o idioma mais falado na América do Sul (50,1% dos sul-americanos o falam).

O português é o único idioma falado e escrito oficial do Brasil, com algumas variações regionais na forma coloquial. É a língua usada nas instituições de ensino, nos meios de comunicação e nos negócios. A Linguagem Brasileira de Sinais é, no entanto, considerada um meio de comunicação legal no país.

O idioma falado no Brasil é em parte diferente daquele falado em Portugal e nos outros países lusófonos. O português brasileiro e o português europeu não evoluíram de forma uniforme, havendo algumas diferenças na fonética e na ortografia, embora as diferenças entre as duas variantes não comprometam o entendimento mútuo.


IDIOMAS INDÍGENAS E DE IMIGRANTES:

Na época do Descobrimento, é estimado que falavam-se mais de mil línguas no Brasil. Atualmente, esses idiomas estão reduzidos à 180 línguas. Das 180 línguas, apenas 24, ou 13%, têm mais de mil falantes; 108 línguas, ou 60%, têm entre cem e mil falantes; enquanto que 50 línguas, ou 27%, têm menos de 100 falantes e metade destas, ou 13%, têm menos de 50 falantes, o que mostra que grande parte desses idiomas estão em sério risco de extinção.

Nos primeiros anos de colonização, as línguas indígenas eram faladas inclusive pelos colonos portugueses, que adotaram um idioma misto baseado na língua tupi. Por ser falada por quase todos os habitantes do Brasil, ficou conhecida como língua geral. Todavia, no século XVIII, a língua portuguesa tornou-se oficial do Brasil, o que culminou no quase desaparecimento dessa língua comum.





Com o decorrer dos séculos, os índios foram exterminados ou aculturados pela ação colonizadora e, com isso, centenas de seus idiomas foram extintos. Atualmente, os idiomas indígenas são falados sobretudo no Norte e Centro-Oeste. As línguas mais faladas são do tronco Tupi-guarani.

Além das dezenas de línguas autóctones, dialetos de origem alóctones são falados em colônias rurais mais isoladas do Brasil meridional, sobretudo o hunsrückisch e o talian (ou vêneto brasileiro), de origens alemã e italiana.


RELIGIÃO:

Ver artigo principal: Religião do Brasil
Sendo constitucionalmente um estado laico, o brasileiro não possui religião oficial e a discriminação aos seguidores de determinada religião é ilegal. Apesar disso, a população do país é tradicionalmente seguidora da Igreja Católica Apostólica Romana e é inegável a influência de tal religião em vários momentos do passado e até mesmo do presente. Nos dias de hoje o Brasil é considerado o maior país católico do mundo em números absolutos.


Ilê Axé Iya Nassô Oká/Casa Branca do Engenho Velho, considerado o terreiro de Candomblé mais antigo de Salvador (Bahia).A predominância do catolicismo, entretanto, deve ser relativizada quando se leva em conta a recente ascensão do protestantismo e a importância histórica das religiões afro-brasileiras, o Candomblé e a Umbanda, na formação cultural e ética do povo brasileiro, apesar de terem sido perseguidas até o começo do século XX, quando a prática religiosa era reprimida pela polícia.


A estátua do Cristo Redentor, no Rio de JaneiroO censo demográfico realizado em 2000 pelo IBGE apontou a seguinte estrutura religiosa do Brasil.

74% dos brasileiros (cerca de 125 milhões) declaram-se católicos
15,4% (cerca de 26 milhões) declaram-se protestantes (evangélicos tradicionais e neopentecostais)
7,4% (cerca de 12 milhões) declaram-se agnósticos, ateus ou não-seguidores de religião alguma
1,3% (cerca de 2,2 milhões) declaram-se espíritas (podem estar integrados a religiões afro-brasileiras)
0,3% declaram-se seguidores de religiões tradicionais africanas tais como candomblé, tambor-de-mina e umbanda
1,7% declaram-se seguidores de outras religiões, como os Adventistas (1,2 milhão), as Testemunhas de Jeová (1,1 milhão), os Santos dos Últimos Dias ou mórmons (200 mil), os budistas (215 mil), os judeus (87 mil) e os muçulmanos (27 mil)


A CULINÁRIA:

Ver artigo principal: Culinária do Brasil
A culinária brasileira é fruto de uma mistura de ingredientes europeus, indígenas e africanos. A refeição básica do brasileiro consiste em arroz, feijão e carne. O prato internacionalmente mais representativo do país é a feijoada. Os hábitos alimentares variam de região para região. No Nordeste há grande influência africana na culinária, com destaque para o acarajé, vatapá e molho de pimenta. No Norte há a influência indígena, no uso da mandioca e de peixes. No Sudeste há pratos diversos como o feijão tropeiro e angu, em Minas Gerais, e a pizza em São Paulo. No Sul do país há forte influência da culinária italiana, em pratos como a polenta, e também da culinária alemã. O churrasco é típico do Rio Grande do Sul.




OUTRA PESQUISA:



"Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si... Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros..." Darcy Ribeiro, em O Povo Brasileiro

Brasileiros... Um povo novo? Que tipo de povo somos nós ? A verdade é que muito já se escreveu sobre isso. E, no entanto, continuamos a fazer as mesmas perguntas... O Povo Brasileiro: vamos ver o que este livro conta.

O livro mostra por que caminhos e como nós viemos, criando aquilo que é chamado de Nova Roma. Roma com boa justificação... Roma por quê? A grande presença no futuro da romanidade, dos neolatinos é a nossa presença. Isso é o Brasil, uma Roma melhor porque mestiça, lavada em sangue negro, em sangue índio, sofrida e tropical. Com as vantagens imensas de um mundo enorme que não tem inverno e onde tudo é verde e lindo, e a vida é muito mais bela... E é uma gente que acompanha esse ambiente com uma alegria de viver que não se vê em outra parte. Esse país tropical, mestiço, orgulhoso de sua mestiçagem... Isso é que me levou muito tempo. Entender como isso se fez... Havia muita bibliografia sobre aspectos particulares, mas não uma visão de conjunto. Deixa eu contar pra vocês como é que isso se fez?

"Os iberos se lançaram à aventura no além-mar... desembarcavam sempre desabusados, atentos aos mundos novos, querendo fruí-los, recriá-los, convertê-los e mesclar-se racialmente com eles... "


O Povo Brasileiro

No Brasil a mestiçagem sempre se fez com muita alegria, e se fez desde o primeiro dia... Eu prometi contar como. Imagine a seguinte situação: uns mil índios colocados na praia e chamando outros: "venham ver, venham ver, tem um trem nunca visto"... E achavam que viam barcas de Deus, aqueles navios enormes com as velas enfurnadas... "O que é aquilo que vem?" Eles olhavam, encantados com aqueles barcos de Deus, do Deus Maíra chegando pelo mar grosso. Quando chegaram mais perto, se horrorizaram. Deus mandou pra cá seus demônios, só pode ser. Que gente! Que coisa feia! Porque nunca tinham visto gente barbada. os portugueses todos barbados, todos feridentos de escorbuto, fétidos, meses sem banho no mar... Mas os portugueses e outros europeus feiosos assim traziam uma coisa encantadora: traziam faquinhas, facões, machados, espelhos, miçangas, mas sobretudo ferramentas. Para o índio passou a ser indispensável ter uma ferramenta. Se uma tribo tinha uma ferramenta, a tribo do lado fazia uma guerra pra tomá-la.


Crianças indígenas: junto à natureza Ao longo da costa brasileira se defrontaram duas visões de mundo completamente opostas: a selvageria e a civilização. Concepções diferentes de mundo, da vida, da morte, do amor, se chocaram cruamente. Aos olhos dos europeus os indígenas pareciam belos seres inocentes, que não tinham noção do "pecado". Mas com um grande defeito: eram "vadios", não produziam nada que pudesse ter valor comercial. Serviam apenas para ser vendidos como escravos. Com a descoberta de que as matas estavam cheias de pau-brasil, o interesse mudou... Era preciso mão-de-obra para retirar a madeira.

Onde tinha algum europeu instalado na costa em contato com as naus, e portanto capaz de fornecer mercadoria, cada aldeia, e eram milhares de aldeias, levava uma moça pra casar com ele. Se ele transasse com a moça, então ele se tornava cunhado. Ele passou a ter sogro, sogra, genros... ele passou a ser parente. Então o sabido do português, do europeu, conseguia desse modo pôr milhares de índios a serviço dele, pra derrubar pau-brasil...

A porta de entrada do branco na cultura indígena foi o "cunhadismo". Através desse costume foi possível a formação do povo brasileiro. E da união das índias com os europeus nasceu uma gente mestiça que efetivamente ocupou o Brasil.

No ventre das mulheres indígenas começavam a surgir seres que não eram indígenas, meninas prenhadas pelos homens brancos, e meninos que sabiam que não eram índios... que não eram europeus. O europeu não aceitava como igual. O que era ? Era uma gente "ninguém ", era uma gente vazia. O que significavam eles do ponto de vista étnico ? Eles seriam a matéria com a qual se faria no futuro os brasileiros...
Um dos primeiros núcleos povoadores surgiu em São Paulo, chefiado pelo português João Ramalho. Há quem afirme que ele tenha chegado ao planalto paulista antes mesmo da chegada de Cabral. Os poucos registros da época supõem que ele teve mais de trinta mulheres índias e quase oitenta filhos mestiços. Um escândalo comentado numa carta do padre Manoel da Nóbrega de 1553!
Edificação antiga em SP:


O POVOAMENTO:

"É principal estorvo para com a gentilidade que temos, por ser ele muito conhecido e aparentado com os índios. Tem muitas mulheres. Ele e seus filhos andam com irmãs e têm filhos delas... suas festas são de índios e assim vivem andando nus como os mesmos índios... "


Trecho da carta de Manoel da Nóbrega.


O povoamento se fez a partir do litoral. Na Bahia, em Pernambuco, no Espírito Santo e no Rio de Janeiro, em toda a costa os europeus geraram uma legião de mestiços. Homens e mulheres chamados de mamelucos pelos jesuítas espanhóis, por acusa do aspecto rústico e da violência com que capturavam e escravizavam os indígenas, de quem descendiam.

"A expansão do domínio português terra adentro, na constituição do Brasil, é obra dos mamelucos... O mameluco abriu seu mundo vasto andando descalço, em fila, por trilhas e estreitos sendeiros, carregando cargas no próprio ombro e no de índios e índias cativas..."


Esses filhos das índias aprendem o nome das árvores, o nome dos bichos, dão nome a cada rio... Eles aprenderam, dominaram parcialmente uma sabedoria copiosa, que os índios tinham composto em dez mil anos. Em dez mil anos os índios aprenderam a viver na floresta tropical, identificaram 64 tipos de árvores frutíferas, domesticaram muitas plantas, essas que a gente usa: mandioca, milho, amendoim.... quarenta e tantas que nós demos ao mundo...

A mandioca faz parte do cardápio do brasileiro. Ela é cultivada e preparada em todo o país do mesmo modo que os indígenas ensinaram no começo da colonização. É uma planta preciosa porque não precisa ser colhida nem estocada. Mantém-se viva na terra por meses.


Herança indígena: canoa feita de tronco Nas comunidades caiçaras, isoladas dos centros urbanos, é possível reviver um pouco da atmosfera do Brasil dos primeiros tempos. Os ancestrais dessa gente provavelmente descendem dos primeiros mestiços que habitaram o litoral. A canoa, feita a partir do tronco de árvore, se parece com as usadas pelos índios. Ela é o único meio de transporte e garante a sobrevivência.

Em alguns lugares o recuo na história é ainda maior. Quinhentos anos após a chegada dos portugueses, é possível encontrar indígenas vivendo no litoral, próximo do Rio de Janeiro. São guaranis, um povo nômade, de origem tupi, que hoje habita a Serra do Mar. Eles conseguiram resistir ao processo de extermínio de sua gente e à ocupação de suas terras. Mesmo depois de séculos de contato eles conseguiram preservar boa parte de sua cultura.


PALAVRAS DA INDIA GUARANI: RESISTÊNCIA

"Antigamente a terra era do índio guarani... Guarani passava com fruta do mato. A mistura era palmito. Hoje nós estamos que nem branco. Os brancos terminaram com a natureza. Nosso trabalho a maioria é de lavoura; comemos numa panela só. A gente sente o guarani como puro brasileiro, porque muitos brancos dizem: �esses bugres aí, índio não vale nada. Não é isso não. O puro guarani é o brasileiro puro... "

Depoimento de Cacique Miguel



Zeferino: "Importante é assumir" "Meu nome é Olívio Zeferino. Não sou índio puro, sou mestiço guarani.... porque o que causa essa questão de ser ou não ser é essa identidade em que você é metade. Então, por exemplo, você é um mestiço. Tem uns que assumem a cultura indígena. Tem uns que são mestiços e assumem a cultura do branco. Então uma pessoa que nasceu com fisionomia de índio não adianta querer falar que é branca, porque todo mundo vê. Agora, o importante é você assumir, porque mesmo sendo mestiço você pode lutar pelo seu povo. "



Depoimento de Olívio Zeferino, estudante de Filosofia na USP

Há duas contribuições fundamentais nesse encontro: uma mestiçagem do corpo e uma mestiçagem da cultura. Em nós vivem milhões de índios, índios que foram esmagados porque a brutalidade do branco com o índio foi terrível. Esmagados porque o europeu tinha muita doença. Os índios não tinham cárie dentária, nem gripe, nem tuberculose... Cada enfermidade dessas era uma espécie de guerra biológica, matou índios em quantidade...

Estima-se em cinco milhões o número de indígenas que habitavam as terras brasileiras na ocasião da chegada dos portugueses. Dois séculos depois, eles não chegavam a dois milhões. Hoje, os sobreviventes somam duzentos e setenta mil habitantes, menos de meio por cento da população brasileira. Em cinco séculos desapareceram para sempre cerca de oitocentas etnias. Eram povos de diferentes culturas, que ocupavam vastos territórios de características geográficas distintas.

Mas esses índios que morriam sobreviviam naqueles mestiços que nasciam. Somos nós que carregamos no peito esses índios, os genes deles para reprodução e a sabedoria deles da mata. O Brasil só é explicável assim, é uma coisa diferente do mundo...



OUTRA PESQUISA:


" Todo brasileiro traz na alma e no corpo a sombra do indígena ou do negro."

Mestre Gilberto Freyre... Escritor pernambucano, morador de Apipucos, no Recife.






Era descendente de senhores de engenho. Conhecia bem os casarões...


Em 1933, após exaustiva pesquisa em arquivos nacionais e estrangeiros, Gilberto Freyre publica Casa-Grande & Senzala, um livro que revoluciona os estudos no Brasil, tanto pela novidade dos conceitos quanto pela qualidade literária.

Gilberto Freyre foi buscar nos diários dos senhores de engenho e na vida pessoal de seus próprios antepassados a história do homem brasileiro. As plantações de cana em Pernambuco eram o cenário das relações íntimas e do cruzamento das três raças: índios, africanos e portugueses.

Em Casa-Grande & Senzala, o escritor exprime claramente o seu pensamento. Ele diz: "o que houve no Brasil foi a degradação das raças atrasadas pelo domínio da adiantada" . Os índios foram submetidos ao cativeiro e à prostituição. A relação entre brancos e mulheres de cor foi a de vencedores e vencidos.


"Casa-Grande & Senzala foi a resposta à seguinte indagação que eu fazia a mim próprio: o que é ser brasileiro? E a minha principal fonte de informação fui eu próprio, o que eu era como brasileiro, como eu respondia a certos estímulos."


Havia tempos Gilberto Freyre procurava escrever sobre o ser brasileiro. Pressões políticas e familiares o levaram, entre 1930 e 1932, a viver o que chamou de "a aventura do exílio". Partiu para a Bahia e pesquisou as coleções do Museu Afro-Brasileiro Nina Rodrigues e a arte das negras quituteiras na decoração de bolos e tabuleiros. Observou que a culinária baiana era neta da velha cozinha das casas-grandes.

Depois da Bahia partiu para a África e Portugal. Iniciou em Lisboa as pesquisas e estudos que sedimentariam o livro Casa-Grande & Senzala. De Portugal foi, como professor visitante, para a Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, onde viajou pelo Sul e pôde constatar a existência, durante a colonização americana, do mesmo tipo de regime patriarcal encontrado no nordeste brasileiro.


"Eu venho procurando redescobrir o Brasil. Eu sou rival de Pedro Álvares Cabral. Pedro Álvares Cabral, a caminho das Índias, desviou-se dessa rota, parece já baseado em estudos portugueses, e identificou uma terra que ficou sendo conhecida como Brasil. Mas essa terra não foi imediatamente auto-conhecida. Vinham sendo acumulados estudos sobre ela... mas faltava um estudo convergente, que além de ser histórico, geográfico, geológico, fosse... um estudo social, psicológico, uma interpretação. Creio que a primeira grande tentativa nesse sentido representou um serviço de minha parte ao Brasil."


Durante o período de estudos na universidade americana, o escritor elaborou uma linha de pensamento que diferenciava raça e cultura, separava herança cultural de herança étnica; trabalhou o conceito antropológico de cultura como o conjunto dos costumes, hábitos e crenças do povo brasileiro.

"Gilberto Freyre diz que Franz Boas foi a figura de mestre que nele ficou maior impressão, porque foi com Franz Boas que ele aprendeu a distinguir raça de cultura, e nessa distinção ele se baseou para escrever Casa-Grande & Senzala. Agora, o conceito de antropologia de Freyre era muito mais amplo, ele partiu para uma interpretação global do povo brasileiro. É uma história ao mesmo tempo econômica, religiosa, folclórica, sociológica."


"Quando, em 1532, se organizou econômica e civilmente a sociedade brasileira, já foi depois de um século inteiro de contato dos portugueses com os trópicos; de demonstrada na Índia e na África sua aptidão para a vida tropical. Formou-se na América tropical uma sociedade agrária na estrutura, escravocrata na técnica de exploração econômica, híbrida de índio, e mais tarde de negro, na composição."
Trecho de Casa-Grande & Senzala.


Portugal, um país largamente marítimo, recebia sempre povos de todos os lugares do mundo. Seus portos eram rota de comércio e de migrações. O contato com estrangeiros estimulava, no povo português, tendências cosmopolitas, imperialistas e comerciais. Na Península Ibérica as raças se misturavam havia milênios. O encontro das culturas árabes e romana impregnava a moral, a arte, a economia e a vida do português. Os árabes - excelentes técnicos navais - e os judeus - financistas e com altos cargos de administração, no conselho real -, emprestavam conhecimento e dinheiro para o empreendimento das navegações e dos descobrimentos. A burguesia comercial ganhava mais poder que a aristocracia territorial portuguesa e buscava no além-mar terras e riquezas nunca exploradas.

Além da mobilidade, o português tinha a capacidade de se misturar facilmente com outras raças. Os homens vinham sem família, sozinhos. Chegavam carentes de contato humano e começavam a se reproduzir primeiro com as índias e depois com as negras escravas. Era preciso povoar o território. No momento em que embarcou na aventura ultramarina, Portugal tinha três milhões de habitantes. O Brasil era imenso; então, como povoar esse território?

"Durante quase todo o século XVI a colônia esteve escancarada a estrangeiros, só importando às autoridades que fossem de fé católica. Temia-se no adventício acatólico o inimigo político capaz de quebrar aquela solidariedade que em Portugal se desenvolvera junto com a religião católica. Essa solidariedade manteve-se entre nós esplendidamente através de toda a nossa formação colonial."
Trecho de Casa-Grande & Senzala.

Foi aqui que chegou...dia 02 de março de 1535...um português chamado Duarte Coelho Pereira, viu essa bela vista e deu uma exclamação:Oh! linda situação para se construir uma vila. Por isso que a cidade se chama Olinda. Antigamente chamava Marino Caetês, habitada pelos índios. Em Pernambuco e no Recôncavo baiano, a colonização se desenvolvia à sombra das grandes plantações de cana-de-açúcar e das casas-grandes de taipa ou de pedra e cal, longe das cabanas de aventureiros e do extrativismo predatório.

"A casa-grande do engenho que o colonizador começou, ainda no século XVI, a levantar no Brasil - grossas paredes de taipa ou de pedra e cal, telhados caídos num máximo de proteção contra o sol forte e as chuvas tropicais - não foi nenhuma reprodução das casas portuguesas, mas expressão nova do imperialismo português. A casa-grande é brasileirinha da silva."
Trecho de Casa-Grande & Senzala.



Num processo de equilíbrio de antagonismos, o branco e o negro se misturavam no interior da casa-grande e alteravam as relações sociais e culturais, criando um novo modo de vida no século XVI. As relações de poder, a vida doméstica e sexual, os negócios e a religiosidade forjavam, no dia-a-dia, a base da sociedade brasileira.

A casa-grande abrigava uma rotina comandada pelo senhor de engenho, cuja estabilidade patriarcal estava apoiada no açúcar e no escravo. O suor do negro ajudava a dar aos alicerces da casa-grande sua consistência quase de fortaleza. Ela servia de cofre e de cemitério. Sob seu teto viviam os filhos, o capelão e as mulheres, que fundamentariam a colonização portuguesa no Brasil. Embora diretamente associada ao engenho de cana e ao patriarcalismo nortista, a casa-grande não era exclusiva dos senhores de engenho. Podia ser encontrada na paisagem do sul do país, nas plantações de café, como uma característica da cultura escravocrata e latifundiária do Brasil.

O clima tropical e as formas agressivas de vida vegetal e animal impossibilitavam a implantação de uma cultura agrícola, nos moldes do costume europeu. O português teve então de mudar seus hábitos alimentares. A mandioca substituía o trigo; no lugar das verduras, o milho; e as frutas davam um colorido novo à mesa do colonizador. Mas sua dieta ficava empobrecida, devido à ausência de leite, ovos e carne, que só apareciam em datas especiais, festas e comemorações. A terra foi usada para o cultivo da cana em detrimento da pecuária e da cultura de alimentos, o que provocou a apatia, a falta de robustez e a incapacidade para o trabalho. Males geralmente atribuídos à mestiçagem. Os portugueses não traziam para o Brasil nem separatismos político, nem divergências religiosas, e não se preocupavam com a pureza da raça. Assim o país se formava. E a unidade dessa grande extensão territorial com profundas diferenças regionais, garantida muitas vezes com o uso da força, aconteceu devido à uniformidade da língua e da religião.

A Igreja desenvolvia planos ambiciosos de evangelização da América Latina, toda ocupada por países de tradição católica. Nessa quase cruzada no Novo Mundo, os padres jesuítas desempenhavam um papel importante na tentativa de implantar uma sociedade estruturada com base na fé católica. Para catequizar os índios, os jesuítas decidiram vesti-los e tirá-los de seu hábitat. Já o senhor de engenho tentava escravizá-los. Nos dois casos, o resultado era o extermínio e a fuga dos primitivos habitantes da terra para o interior.


"Os portugueses, além de menos ardentes na ortodoxia que os espanhóis e menos estritos que os ingleses nos preconceitos de cor e de moral cristã, vieram defrontar-se na América com uma das populações mais rasteiras do continente... Uma cultura verde e incipiente, sem o desenvolvimento nem a resistência das grandes semicivilizações americanas, como os Incas e os Astecas."
Trecho de Casa-Grande & Senzala.

"O ambiente em que começou a vida brasileira foi de grande intoxicação sexual. O europeu saltava em terra escorregando em índia nua. Os próprios padres da Companhia precisavam descer com cuidado, se não atolavam o pé em carne."
Trecho de Casa-Grande & Senzala.



A sociedade brasileira, entre todas da América, era a que se formava com maior troca de valores culturais. Havia um aproveitamento de experiências dos indígenas pelos colonizadores. Mesmo quando inimigo, o índio não provocava no branco uma reação que levasse a uma política deliberada de extermínio, como a que ocorria no México e Peru. A reação dos índios ao domínio do colonizador era quase contemplativa. O português usava o homem para o trabalho e a guerra, principalmente na conquista de novos territórios, e a mulher para a geração e formação da família. Esse contato provocava o desequilíbrio das relações do índio com o seu meio ambiente.



"A grande presença índia no Brasil não foi a do macho, foi a da fêmea. Esta foi uma presença decisiva, a mulher índia tomou-se de amores pelo português, talvez até por motivos fisiológicos, porque, segundo pude apurar quando escrevi Casa Grande & Senzala, as sociedades ameríndias ou índias, inclusive a brasileira, eram sociedades que precisavam de festivais como que orgiásticos para provocar nos homens, nos machos, desejos sexuais. O que há de acentuar é o grande papel da índia fêmea na formação brasileira, essa índia fêmea não só através do relacionamento mencionado sexual, mas através do papel social que ela começou a desempenhar magnificamente, tornou-se uma figura capital na formação brasileira."

"Da cunhã é que nos veio o melhor da cultura indígena. O asseio pessoal. A higiene do corpo. O milho. O caju. O mingau. O brasileiro de hoje, amante do banho e sempre de pente no bolso, o cabelo brilhante de loção ou de óleo de coco, reflete a influência de tão remotas avós. Ela nos deu, ainda, a rede em que se embalaria o sono ou a volúpia do brasileiro."
Trecho de Casa-Grande & Senzala.



A união do português com a índia havia gerado os mamelucos que atuavam como bandeirantes e, junto com os índios, formavam a muralha movediça da fronteira colonial. O mameluco e o índio, que excediam o português em mobilidade, atrevimento e ardor guerreiro; que defendiam o patrimônio do senhor de engenho contra o ataque de piratas estrangeiros, nunca firmaram as mãos na enxada. Os pés de nômades não se fixavam na plantação da cana-de-açúcar.


Dos costumes dos primitivos habitantes da terra eram as relações sexuais e de família, a magia e a mítica que marcavam a vida do colonizador. A poligamia e a sexualidade da índia iam ao encontro da voracidade do português, ainda que a vida sexual dos indígenas não se processasse tão à solta quanto o relatado pelos viajantes que aqui estiveram. Para as tribos mais primitivas, a união do macho com a fêmea tinha época; o costume de oferecer mulheres aos hóspedes era prática de hospitalidade, quase um ritual. A mulher nativa resgatava o sonho da ninfa, que se banhava no rio e penteava os longos cabelos negros. Uma imagem deixada pela invasão moura na Península Ibérica e adormecida no inconsciente do português.



Os portugueses davam uma contribuição criativa ao novo mundo através da produção de açúcar. E implantavam um sistema econômico que aprenderam com os mouros durante a ocupação da Península Ibérica. Os mouros, de grande tradição agrícola, introduziram a laranjeira, o limoeiro e a tangerina e implantaram a tecnologia do fabrico do açúcar em Portugal. O engenho mouro é avô do engenho pernambucano.
Essa contribuição criativa é que diferenciava o português do holandês e do francês, que para cá traziam apenas aperfeiçoamentos tecnocráticos. O choque das duas culturas, a européia e a ameríndia, no Brasil colônia, se dava mais lentamente, não por meio da guerra, mas nas relações entre homem e mulher, mestre e discípulo. A Igreja ganhava no Brasil capelas simples dentro do complexo arquitetônico da casa-grande. Lá morava o capelão, que dela tirava seu sustento. E essa mesma Igreja, através dos jesuítas, partia maciça e indiscriminadamente para a catequização dos índios.

O animalismo e a magia impregnavam a vida dos índios: desde o berço, quando a mãe entoava cantigas de ninar e, já meninos, nas brincadeiras de imitar animais. Entre os jogos infantis dos curumins, o jogo de cabeçada com a bola de borracha ficava como contribuição da cultura indígena. Apesar de crescerem livres de castigos corporais e de disciplina paterna, os meninos estavam sempre em contato com rituais da vida primitiva. Na puberdade eram levados para o baíto, a casa secreta dos homens, onde passavam por provas de iniciação à fase adulta. Para os padres da Companhia de Jesus, os índios acreditavam em tudo e aprendiam e desaprendiam os ensinamentos rapidamente. Havia uma enorme quantidade de aldeias espalhadas pela floresta, que falavam diferentes línguas. Era preciso unificar as tribos para poder pregar a doutrina católica. O menino indígena servia de intérprete aos jesuítas, que aprendiam com ele as primeiras palavras em tupi. Os padres puderam então escrever uma gramática, unificando a língua dos Brasis. Estava criando o tupi-guarani.

Tanto a Igreja quanto o senhor de engenho fracassavam nos esforços de enquadrar o índio no sistema de colonização que iria criar a economia brasileira. Fora de seu hábitat natural, o índio não se adaptava como escravo: morria de infecções, fome e tristeza. Para suprir a deficiência da mão-de-obra escrava, os senhores de engenho de Pernambuco e do Recôncavo baiano começavam a importar negros caçados na África. Agora, as escravas negras substituíam as cunhãs tanto na cozinha como na cama do senhor. Na agricultura, a presença do negro elevava a produção de açúcar e o preço do produto no mercado internacional. O Brasil, esquecido por quase duzentos anos, despertava finalmente o interesse do Reino de Portugal.

Entre os africanos que vinham para o Brasil, eram os negros muçulmanos, de cultura superior não só à dos índios como também à da maioria de colonos brancos, que aqui chegavam e viviam quase sem nenhuma instrução, que para escrever uma carta necessitava da ajuda do padre-mestre. O movimento malê da Bahia, em 1835, foi considerado um desabafo da cultura adiantada, que era oprimida por outra menos nobre. Contava-se que os revoltosos sabiam ler e escrever em alfabeto desconhecido. Eram negros que liam e escreviam em árabe.

"Pode-se juntar à superioridade técnica e de cultura dos negros sua predisposição como que biológica e psíquica para a vida nos trópicos. Sua maior fertilidade nas regiões quentes. Seu gosto pelo sol. Sua energia sempre fresca e nova quando em contato com a floresta tropical."
Trecho de Casa-Grande & Senzala.



O Brasil importava da África não somente o animal de tração que fecundou os canaviais, mas também técnicos para as minas, donas de casa para os colonos, criadores de gado e comerciantes de panos e sabão.Os negros vindos das áreas de cultura africana mais adiantada eram um elemento ativo, criador e pode-se dizer nobre na colonização do Brasil, degradados apenas pela condição de escravos. O negro escravo e a cana-de-açúcar fundamentavam a colonização aristocrática e a estrutura básica do mundo dos coronéis se repetiria nos ciclos do ouro e do café, em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, com o mesmo fundamento: a ocupação da terra.


Na sociedade escravocrata e latifundiária que se formava, os valores culturais e sociais se misturavam à revelia de brancos e negros. Sua convivência diária favorecia o intercâmbio de culturas e gerava sadismos e vícios, que influenciavam a formação do caráter do brasileiro. A escravatura degradava senhores e escravos.

"Na verdade, senhores, se a moralidade e a justiça de qualquer povo se fundam, parte nas sua instituições religiosas e políticas, e parte na filosofia, por assim dizer doméstica de cada família, que quadro pode apresentar o Brasil quando o consideramos debaixo desses dois pontos de vista?"
Trecho de Casa-Grande & Senzala.



O senhor de engenho, um homem extremamente rico e poderoso, passava a maior parte do tempo deitado na rede, cochilando e copulando. Quando saía, a passeio ou em viagem, o negro era seus pés e mãos. O sinhô não precisava levantar-se da rede para dar ordens aos negros, bastava gritar.
Os negros veteranos, os ladinos, iniciavam os recém-chegados na moral e nos costumes dos brancos. Ensinavam a língua e orientavam nos cultos religiosos sincretizados. Eram ainda os ladinos que ensinavam aos boçais a técnica e a rotina na plantação da cana e no fabrico do açúcar.


A escravidão desenraizava o negro de seu meio social e desfazia seus laços familiares. Além dos trabalhos forçados, ele era usado como reprodutor de escravos: era preciso aumentar o rebanho humano do senhor de engenho. As crias nascidas eram logo batizadas e ainda assim consideradas gente sem alma. A Igreja, esteio dos poderosos, agia da mesma forma no tratamento dado ao negro. A mulher escrava fazia a ponte entre a senzala e o interior da casa-grande e representava o ventre gerador. As negras mais bonitas eram escolhidas pelo sinhô para serem concubinas e domésticas. Objeto dos desejos sádicos dos homens, do senhor de engenho ao menino adolescente, a negra sofria por parte da mulher branca os castigos mais variados. Se a beleza dos seus dentes incomodava a desdentada sinhá, esta mandava arrancá-los. A escrava adoçava a boca do senhor e recebia chicotadas à mando da senhora, mas cumpria as tarefas que normalmente estariam destinadas à mãe de família. As damas da sociedade se casavam entre os doze e os quinze anos com homens muito mais velhos. O conhecimento que tinham da vida de casada, os acontecimentos de fora do engenho e outras histórias - nem sempre românticas - elas ouviam da boca das mucamas. As sinhazinhas sentadas à mourisca, tecendo renda ou deitadas na rede e as escravas a lhes catar piolho ou fazendo cafuné. Cedo se casavam e cedo morriam por causa de sucessivos partos ou se tornavam matronas aos dezoito anos. O ócio e a vida reclusa faziam das sinhás mulheres amarguradas. E ignorantes: era raro encontrar uma que soubesse ler e escrever. A presença da negra na vida do menino vinha desde o berço, quando ela o amamentava e acalentava o seu sono. A ama de leite ensinava as primeiras palavras num português errado, o primeiro "pai nosso", o primeiro "oxente", e amaciava com a própria boca a comida do menino de engenho. Os sofrimentos da primeira infância - castigos por mijar na cama e purgante uma vez por mês os meninos descontariam tornando-se pequenos diabos. O moleque, o pequeno escravo, companheiro do sinhozinho em brincadeiras e aventuras, servia também de saco de pancadas. Tornava-se objeto do prazer mórbido de tratar mal os inferiores e os animais, prazer de todo menino brasileiro filho do sistema escravocrata. Criança mimada e educada para ser o herdeiro todo-poderoso, o menino desde o início da adolescência era entregue aos cuidados eróticos da fulô.


"Costuma dizer-se que a civilização e a sifilização andam juntas. O Brasil, entretanto, parece ter-se sifilizado antes de se haver civilizado. A contaminação da sífilis em massa ocorreria nas senzalas, mas não que o negro já viesse contaminado. Foram os senhores das casas-grandes que contaminaram as negras das senzalas. Por muito tempo dominou no Brasil a crença de que para um sifilítico não há melhor depurativo que uma negrinha virgem."
Trecho de Casa-Grande & Senzala.



Os senhores de engenho casavam-se sucessivas vezes, sempre preferindo as jovens sobrinhas; exagerava-se, então, o sentimento da propriedade privada. As heranças eram disputadas por filhos legítimos e parentes próximos. Aos filhos bastardos, gerados nas casa-grande e paridos na senzala, restava a tolerância do senhor, que ao morrer os libertava. Nomes e sobrenomes se confundiam: os escravos mais próximos, que ganhavam a simpatia do senhor, conseguiam adotar o sobrenome dos brancos. Na tentativa de ascensão social, os negros imitavam dos senhores as formas exteriores de superioridade. Mas muitos nomes ilustres de senhores brancos vinham dos apelidos indígenas e africanos das propriedades rurais - a terra recriava os nomes dos proprietários à sua imagem e semelhança.
A música, o canto e a dança dos escravos tornavam a casa-grande mais alegre. A risada do negro quebrava a melancolia e o silêncio infinito do senhor de engenho. As mães negras e as mucamas, aliadas aos meninos, às moças das casas-grandes e aos moleques, corrompiam o português arcaico ensinado pelos jesuítas aos filhos do senhor. A nova fala brasileira não se conservava fechada nas salas de aula das casas-grandes, nem se entregava de todo à maior espontaneidade de expressão da senzala. Mas o modo carinhoso do brasileiro colocar os pronomes: me diga, me espere... vem do africano. Também do seu modo de falar ficaram as formas diminutivas: benzinho, nézinho, inhozinho.

Era um novo jeito de falar, um novo jeito de andar, um novo jeito de comer... A culinária da senzala aproveitava as sobras de carnes da casa-grande, usava o aipim indígena e as verduras, misturava aos temperos africanos, principalmente o dendê e a pimenta malagueta. Surgiam a feijoada, a farofa, o quibebe, o vatapá. Alimentos que combinavam com a dureza do trabalho no cativeiro. As crenças e magias trazidas pelos portugueses eram transformadas em feitiçaria nas mãos dos africanos. Aos negros feiticeiros recorriam os senhores brancos idosos a procura de afrodisíacos; as jovens sinhás, que não conseguiam engravidar; e as belas mucamas, que aprendiam a receita do café mandingueiro, um filtro amoroso feito com café bem forte, muito açúcar e sangue de mulata.

Na religião conviviam a cultura do senhor e a do negro. O catolicismo praticado aqui era uma religião doce, doméstica, de intimidade com os santos. Os padres se vangloriavam de conceder aos negros certas vantagens, como o direito de manifestar suas tradições nas festas do terreiro. Nasciam então as religiões afro-brasileiras: São Jorge é o orixá Ogum e Nossa Senhora é Iemanjá.


"Não foi só de alegria a vida dos negros escravos dos ioiôs e das iaiás brancas. Houve os que se suicidaram comendo terra, enforcando-se, envenenando-se com ervas e potagens dos mandingueiros. O banzo deu cabo de muitos. O banzo - a saudade da África. Houve os que de tão banzeiros ficaram lesos, idiotas. Não morreram, mas ficaram penando."

Trecho de Casa-Grande & Senzala.



Os negros, muitos agora, libertos pela alforria, pela revolta ou pelas fugas, unidos nos quilombos, lutavam pelo fim da escravidão. Aliavam-se aos ideais libertários os filhos de poderosos senhores de engenho que se tornavam abolicionistas por motivos econômicos, humanitários ou, simplesmente, pelo apego que tinham às suas mães de leite.

" Os brancos diziam que em nenhum país do mundo essa nefanda instituição foi tão doce como no Brasil. Agora não me passa pela cabeça - não deve passar pela cabeça de ninguém - que essa nefanda instituição, como os próprios brancos chamavam a escravidão, que ela pudesse ser doce em algum lugar. Ela só pode ser doce da perspectiva de quem estivesse na casa-grande e não na perspectiva de quem estivesse na senzala."


Em 1984, numa de suas últimas entrevistas, o escritor Gilberto Freyre resumia o seu pensamento sobre a situação presente do negro, lembrando o abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco:



"O problema é que a abolição da escravatura, embora tenha sido fato notável na história da formação brasileira, foi muito incompleta."

Com a abolição, os problemas do negro estariam apenas começando. Mas quem se interessou por isso? Ninguém se interessou. O negro livre deixou as fazendas e os engenhos e foi inchar as periferias das cidades. Abandonado, constituiu-se num sub-brasileiro.


HOMENAGEM AO POVO BRASILEIRO.



A Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, no Carnaval 2009, resgatOU através da visão do grande educador, antropólogo e político brasileiro, o saudoso professor Darcy Ribeiro, a formação do povo brasileiro comparando-o com Roma, por sua presença latina no nosso país continente.

Esta Nova Roma justifica-se porque é mestiça sem perder a sua latinidade, mas recebendo influência indígena e negra, formam uma sólida e mutante identidade étnica. É um Brasil cujo povo é alegre e orgulhoso de sua mestiçagem e, veremos através de nosso enredo como isto se deu neste ambiente tropical onde, o clima e o verde abraçam a todos.

Começamos pelos índios, que ao longo de 10 mil anos aprenderam a lidar com o ambiente das florestas e consegue tirar o melhor dela para a sua sobrevivência. Seus núcleos sociais obedecem a uma hierarquia própria e direcionada para o bem comum.

Com a chegada dos europeus, os opostos se confrontam; selvageria e civilização em um primeiro momento não irão se misturar. Entretanto com os interesses de ambos os lados, os índios cobiçando ferramentas e europeus com olho no pau-brasil, a aproximação torna-se inevitável. O indígena não se deixa escravizar facilmente, não subserviente, é contra o seu espírito livre, daí, surgindo grandes dificuldades no processo extrator da nobre madeira.

As circunstâncias sinalizam caminhos outrora pouco ortodoxos para a solução do problema.

Das milhares de aldeias por toda a costa se torna comum o "casamento" de índias com europeus. Agora parentes, surge a tal mão-de-obra para derrubar o pau-brasil; é o "Cunhadismo". O início da mestiçagem também é o início da formação do povo brasileiro.

O denominado mameluco aprende sobre a milenar cultura indígena que se soma aos conhecimentos europeus. Quem são eles? Nem um, nem outro, são a base transformadora de uma nova etnia nacional.

O contato com o europeu também foi danoso para o índio. Moléstias vindas do outro lado do mar dizimam os que aqui habitavam aos milhares, entretanto, a junção de conhecimentos foi primordial para a subsistência de todos nestas terras.

Gado, cana, ouro e plantios em geral necessitam de mão de obra, a demanda era muito maior que as "gentes" para a labuta.

Agora o interior também se desenvolvia no processo extrativista e de assentamento. O negro trazido da África como escravo, se junta com o mestiço local, daí surgindo multidões de crioulos e mestiços de toda a ordem por aqui.

Não podemos esquecer que, no período destes primeiros três séculos a fé movimentou de forma consistente a vida dos habitantes locais. O catolicismo jesuíta se junta com sincretismos de toda ordem e transformam a fé em uma manifestação santeira e festeira, muito importante para o desenvolvimento folclórico nacional.

O negro também contribuiu de forma definitiva para a disseminação da língua portuguesa, pois os índios e jesuítas criaram uma linguagem própria e as etnias negras tinham seus dialetos, portanto, para haver comunicação deveriam aprender a linguagem do capataz.

Com a miscigenação "este" não era índio, nem branco, nem negro, então o que ele era? Seria identificado quando se definisse o que era um brasileiro.

Não demorou que neste território gigante a política libertária, não somente do povo como também da coroa portuguesa se manifestasse. Os inconfidentes, o Brasil agora imperial, a libertação dos escravos em um país miscigenado recebe levas de mão-de-obra européia e oriental, em São Paulo e Sul, formam-se novas ordens de desenvolvimento, incluindo industrial.

Mesmo com as adversidades provocadas por séculos de história, o povo brasileiro se sente como um povo só. O regionalismo apresenta diferenças neste país continente, entretanto a urbanização contribui para uniformizar os brasileiros, porém, mantendo as suas diferenças.

Nossas regiões têm em si identidades próprias, mas o mais importantes é que mostrarmos tudo isso com os "olhos" de Darcy Ribeiro e como ele mesmo dizia: "que bela história tem este povo brasileiro".

A maior expressão cultural consolidada de um povo vem de seu folclore.



PARA REFLEXÃO:

Para entendermos melhor como nasceu nosso país para o mundo, voltaremos para a filosofia colonialista portuguesa dos séculos XV e XVI. Diferentemente dos espanhóis usurpadores e exterminadores de civilizações, a Coroa Portuguesa, até por sua pequena área geográfica, necessitava de terras para expandir-se, enriquecer e abastecer-se através de um comércio efervescente.

No Brasil não foi diferente, porém, para que este empreendimento prosperasse, vários fatores foram considerados. Entretanto, para nós, alguns deles serão irrelevantes. Nosso país cresce através dos séculos baseado em duas premissas: a primeira é a produção e a segunda, seguindo pela própria necessidade da primeira, é o assentamento deste povo, neste solo produtivo.

A primeira visão do colonizador português ao aportar nestas novas terras, o remete às visões mitológicas da época; o paraíso perdido aqui se encontrava. Vislumbra-se um povo diferente, cuja nudez é comum, inocente. Vivia-se em total integração com a natureza, não existem roupas, moeda ou comércio, nada que se assemelhe com a organização civilizatória européia.

Esses índios são, nessa visão, parte integrante do paraíso, pois, somadas a exuberância da floresta com seus sons e suas cores, instigam fortemente a imaginação dos que aqui chegaram nestes primeiros tempos.

Entretanto, para se levar a cabo a nova empreitada, o processo civilizatório não seria tão fácil como se supunha.

Em pouquíssimo tempo a visão angelical se desfaz, dando lugar à nova percepção destes aborígines. Estes são organizados em sociedades comunitárias, onde todos vivem para o bem comum, apenas plantando e extraindo da terra o essencial para sua própria subsistência, além da caça e da pesca.

Essas tribos também se rivalizam, tanto no comportamento quanto na forma de expressão, e essas diferenças os levam a constantes embates sangrentos, pois a arte da guerra era prática comum. A conseqüência desses confrontos horrorizava os portugueses e outros europeus que aqui chegavam, principalmente pelo destino que esperava os guerreiros vencidos, os ?sobreviventes?, que seriam canibalizados, prática comum dada à crença de que ao comer os corpos dos guerreiros vencidos, sua força seria assimilada e dessa forma somada ao corpo dos vencedores, tornando-os mais fortes e corajosos. Isso acontecia em rituais e, curiosamente, com o total consentimento da vítima.

Neste início, a oferta de mão de obra branca era insuficiente para o novo projeto extrativista de pau-brasil e também para o plantio de subsistência, e, principalmente, quando se pensa em um projeto expansionista agro-pecuário.

O processo escravista indígena para tal fim, não se consolida pelo simples fato de que o índio, além de não se entender como mão de obra manipulável, resistiria de forma violenta, tendo em vista que jamais usou desta prática para com os seus e, dessa forma, não havia nenhuma razão para se deixar manipular pelo colonizador.

É o choque de culturas que, inicialmente, não são complementares; porém, em pouco tempo o seriam.

O branco rapidamente e por necessidade começa a assimilar os conhecimentos de sobrevivência dos índios. Aprende a reconhecer os alimentos da terra, fará uso da caça e da pesca e, aos poucos, implantará via importação o gado e a cana, que se mostra viável para este solo.

Uma alternativa para o impasse da utilização de mão de obra indígena se dá com a prática do casamento entre os portugueses e as índias. Este processo ganha o nome de "cunhadismo", já que dessa forma, este branco passa a fazer parte da ?família? e terá como vantagem poder usar seus familiares para empreender seus intentos produtivos. Os filhos destas uniões serão o embrião desta nova nação mestiça.

O expansionismo do ciclo do gado promovido por Garcia D?Ávila na Bahia, se dá com a chegada das reses de Vacuum vindas da África, que aqui se reproduzem e serão tocadas em direção ao interior da Bahia, ao nordeste e ao norte, por estes caboclos boiadeiros.

No litoral o plantio da cana faz-se expressivo. A mão de obra utilizada ainda é a escravista indígena e mestiça, o que nem sempre se dá de forma tranqüila e cordial.

A Coroa Portuguesa clama pelo aumento de produção e o modelo organizacional ainda não se faz eficiente, principalmente no que diz respeito ao plantio.

Em paralelo, o processo civilizatório passa também por outra vertente; na visão do religioso europeu, através de suas "missões", é preciso salvar e introduzir naquelas almas em danação, um pouco de paz e promover desta forma a fermentação da utopia da Igreja no novo mundo. Neste contexto, não demora muito para que os interesses da Igreja colidam com os objetivos mercantilistas, agravando ainda mais o problema da falta de mão de obra para a demanda, que ora se apresentava.


O AFRICANO E O AFRO - BRASILEIRO.

A mão de obra negra é introduzida no Brasil no final do século XVI, para suprir as necessidades no plantio da cana para a exportação. As levas de negros se tornarão constantes até o século XIX, entretanto, no começo desta prática escravista não há distinção entre as habilidades dos negros que aqui aportavam, era apenas ?carvão para ser queimado?, já que o raciocínio era baseado na labuta de sol a sol, sem que a importância da manutenção física deste contingente escravo fosse levada em consideração, pois era facilmente substituível.

Com a interiorização da colônia e seus novos assentamentos, as exigências do cotidiano aproximam-se do ?modus-vivendi? da matriz européia. Fora aqueles que se aventuram a atravessar o Atlântico com a ambição em riquezas e aliado agora ao advento das sesmarias, não existe muita opção de trabalhadores para suprir os fardos habituais que se apresentam.

Neste ponto, cabe explicar que os negros que aqui chegam vêm de vários pontos diferentes da África, com seus próprios dialetos e suas habilidades diferenciadas. A primeira barreira a ser vencida será a da comunicação; os escravos não conseguem interagir inicialmente por falta de coesão lingüística, forçando os mesmos a aprender o parco, porém eficiente linguajar do capataz. Este receberá sonoridade, um pouco diferente do praticado na Corte e assimilará palavras oriundas da raiz tupi. Esse mecanismo, ao longo dos séculos, tornar-se-á o principal instrumento da união nacional.

Os negros, adaptados ao novo modelo de viver, são cruciais quando da chegada de novos lotes para complementar os quadros serviçais, pois estes disseminam a forma de trabalhar, o comportamento e até o modelo sincrético de sua fé, sempre reprimido em contraponto à imposição cristã.

Levando em conta o cuidado tomado pelos compradores destes lotes, nos quais poucas cabeças da mesma etnia se manteriam juntas, com a finalidade de reprimir quaisquer formas organizacionais de rebelião, exemplificam a eterna tensão existente neste formato de sociedade. Por outro lado, outra forma classificatória se faz presente.

A colônia não se resume mais ao plantio da cana ou a criação de gado. O cenário muda para novas formas de obtenção de lucro. Com o ouro e as pedras preciosas além da expansão urbana, os negros, com seus conhecimentos adquiridos nas suas nações de origem, são aproveitados além da mão de obra bruta, sendo também aproveitados para toda uma nova gama de funções necessárias para o bom andamento destes núcleos.

Negros experientes no trato com a madeira, mineiros conhecedores de ouro e metais, artesãos construtores, escribas letrados e negros de bom trato para os serviços de contato direto com as gentes brancas.

Outra contribuição relevante se faz na culinária, intimamente ligada aos cultos religiosos, que se prolifera por todos os cantos do país onde existe a presença destas etnias.

Segundo pesquisadores citados por Darcy Ribeiro, são três grupos os que chegam da Costa Ocidental da África. O primeiro, da cultura sudanesa, compreende os Yorubás, Dahomey e os Fanti-Ashanti. O segundo traz grupos islamizados como os Peuhl, os Mandinga e os Haussa do norte da Nigéria e, por fim, o terceiro grupo é formado por Bantus vindos de Angola e do território que conhecemos hoje por Moçambique.

Sem essa organização no processo produtivo não teríamos uma melhor qualidade na manipulação do ouro, na cunhagem e no trato com as pedras preciosas, em destaque para os diamantes, tudo com o amplo direcionamento exportador.

No campo das artes mobiliárias e decorativas, os mestres artesãos ensinam seu ofício para uma verdadeira legião exclusiva de mãos talentosas; como conseqüência surge uma arte colonial peculiar lembrando em parte a influência européia, mas com o nítido peso e beleza daquela cultura, a qual se adapta e recria as formas impostas.

O sincretismo religioso finca uma nova manifestação de fé, que num primeiro momento constrói toda uma nova visão de devoção, que se tornará com o passar dos séculos uma demonstração peculiar e única da crendice e fé populares.

Enfim, usos, costumes e comportamento serão absorvidos e incorporados, mesmo sem nos darmos conta, ao nosso dia a dia, tal como aconteceu em relação ao índio.

O BRASILEIRO CRIOLO E CABLOCO.

As diferenças ecológicas e os processos produtivos de cada região formarão como o próprio Darcy Ribeiro descreve, ilhas de desenvolvimento e protocélulas civilizatórias distintas em nosso território. A comunicação entre estas no início é inexistente, entretanto com o passar dos séculos e tendo sido processadas de forma muito parecida, estas formações étnicas brasileiras, cada uma com porcentagens diferentes de matrizes, em dado momento, formarão o arquipélago assentado mais sólido e unificador nacional já visto no que diz respeito ao fluxo colonizador das Américas.

Nossa colônia-país sempre recebeu gente que de uma forma ou de outra chegaria para ficar, para se assentar, para por aqui viver e morrer. Portanto quaisquer que fossem os motivos, bárbaros ou não, se daria a tal miscigenação seu tempo, formando o que já foi dito como protocélulas civilizatórias com a cara do Brasil.

Com o início da produção açucareira trazida com a experiência dos portugueses das Ilhas da Madeira e dos Açores por seus mulatos e, usando a tecnologia árabe que dominavam, além de encontrar por aqui o solo de massapé que propiciava o plantio, a veloz disseminação das áreas plantadas se fazia em ordem exponencial.

Surgem as cidades porto de Recife-Olinda e Salvador, compreendendo as faixas litorâneas de plantio do sul da Bahia até Pernambuco.

Analisando a adaptação do europeu e a destruição da massa indígena além de sua aculturação e assimilação, conclui-se que uma nova etnia se faz presente nessas áreas.

Com a chegada do negro, essencialmente mão de obra direcionada para o cultivo no campo, torna-se impossível não haver uma deterioração sócio-cultural desses negros e a sua assimilação engordando esta nova etnia brasileira típica amulatada.

Para esse Brasil crioulo, os movimentos de produção com o tempo tendem a se pulverizar em outras culturas como o fumo, o algodão, o anil e o cacau, que apesar de não serem tão importantes em relação a ganhos de exportação, não se dão com números desprezíveis, mesmo porque a eficiência das técnicas existentes garantia grande produtividade e qualidade.

Os caboclos são descendentes mais diretos de uma miscigenação branca e índia, onde particularmente o negro terá pouca influência. Na história da região principalmente amazônica, está a chave desta etnia misturada.

Com as numerosas invasões ao longo do grande rio-mar por franceses, espanhóis e toda a sorte de pirateadores de produtos, faz-se necessário criar uma rede de proteção para as margens do Amazonas.

A densa floresta torna-se provedora de uma enorme variedade de especiarias, as quais o olho do europeu tanto cobiçava. Óleos vegetais, ceras de origem animal e vegetal e, por fim, a extração do látex das seringueiras promove a interiorização destes.

A adaptação do caboclo no trato do rio com a pesca, transporte e escoamento do fruto de seu trabalho, promove por fim o que se almejava: a proteção da malha ribeirinha e o sustento, mesmo que precário, deste contingente étnico diferenciado.

Durante quatro séculos as vilas e núcleos urbanos pouco prosperaram. Entretanto, com o advento da borracha houve investimentos maciços em Manaus e Belém do Pará, transformando estas cidades em grandes metrópoles aos moldes europeus do início do século XX com uma velocidade espantosa. Para reforçar o processo extrativista da borracha, chegam também levas de nordestinos com o sonho de enriquecimento rápido, aumentando ainda mais a movimentação destas, agora grandes cidades.

O declínio do látex força novamente o contingente trabalhador extrativista a viver na penúria e agora dependendo de forma efetiva do ecossistema e dos proventos que os rios oferecem.

Essa adaptação está tão enraizada neste povo, que aos poucos são aqueles que querem largar seu modo de vida para aventurar-se em outras paragens.

O elo de ligação civilizatório passa obrigatoriamente pelos rios e neles trafegam os "regatões", barcos armazéns que vêm recolhendo os frutos da produção e trocam, na prática do escambo, por vezes por mantimentos, ferramentas, combustíveis e vestuário, conforme as necessidades mais prementes.

Esta prática não é para a maior parte dos logradouros algo muito constante, já que além das distâncias, o clima e o rio influenciam nas produções e os produtos adquiridos adaptam-se ao ritmo sazonal.

Por outro lado, as influências das matrizes que criaram este caboclo ainda se fazem presentes em seu comportamento e em suas expressões folclórico-culturais.

O SERTANEJO.

Para dentro das faixas litorâneas do nordeste de verdes florestas onde se praticam o cultivo do açúcar, estende-se outra área ecologicamente bastante diferente da primeira.

São as planícies do agreste, o semi-árido das caatingas e no Brasil central, os planaltos e cerrados extensos, todos propícios para a expansão do gado trazido inicialmente de Cabo Verde. Cuidados de forma solta, já que o vacum procurava seu pasto e suas aguadas, era definitivamente o ambiente ideal para sua reprodução.

Os canaviais estavam intimamente ligados à produção pecuária, pois dela saiam carnes, laticínios, força motriz e transporte para apoio da indústria açucareira.

Com a sua natural expansão rumo ao interior, promovida inicialmente na Bahia e em seguida por Pernambuco, um grande contingente é envolvido na empreitada já que estamos falando de 700 mil cabeças no final do século XVI.

Nos currais criados para pontuar o caminho do gado, viviam famílias inteiras com o apoio de aprendizes que zelavam pela boa serventia dos vaqueiros, que chegavam e partiam constantemente e traziam consigo o sal e toda sorte de produtos que se faziam necessários para a subsistência.

A interiorização do gado no nordeste e norte chega às fronteiras da grande floresta amazônica e rumando em direção ao centro-oeste, recebem também influências da região pantaneira.

Etnicamente analisados, os sertanejos que inicialmente são descendentes de índios e brancos sofrem um processo de clareamento quando mestiços claros e brancos sem lugar nas plantações escravistas, optam por fazer parte desta prática de pastoreio, mas, ainda em contato com indígenas no nordeste e no norte este clareamento não é muito notado. Já no centro-oeste os indígenas passam a ser um empecilho para a expansão das terras que seriam ocupadas por boiadas, provocando assim um branqueamento mais efetivo, porém com traços indígenas suavizados.

Ao longo dos séculos os sertanejos nordestinos que ocupam as terras áridas dos sertões sofrem com o meio-ambiente. Tornam-se mais baixos e atarracados, o mesmo acontecendo com o gado.

As distâncias dos assentamentos com o tempo também se tornaram outro grande empecilho, quando a demanda por bovinos já não interessava mais aos latifundiários levando essa gente à penúria e à utilização das cabeças de gado para o seu próprio consumo. Estes agora se tornam nômades à procura de trabalho e os fixados a terra tentam produzir apenas o suficiente para seu sustento.

Este povo sofrido cada vez mais se agarrará a mecanismos que o façam suportar suas agruras, tornando-os fervorosos crentes na fé e em mitos europeus de salvacionismo, consolidando assim crendices e personagens tão diferentes neste universo agreste como santos, beatos e reis míticos.

Os sertanejos do centro-oeste terão outra sorte, pois sob as mesmas influências não serão tão fervorosos e crentes, até por não compartilharem o mesmo sofrimento dos nordestinos, já que o crescimento do gado e a sua distribuição prosperam a olhos vistos.

Para o goiano principalmente, o orgulho de pertencer à casta de vaqueiros habilidosos era uma meta a ser alcançada e, em suas manifestações de fé aos santos de devoção era prática a promoção de festas em agradecimento. Quanto aos mitos europeus, sobrevive apenas o de D. Sebastião com a Cavalhada que conta a luta entre Mouros e Cristãos, agora aclimatados aos moldes do campo.

O CAIPIRA.

O começo de São Paulo é em tese a transfiguração do mameluco com vestes aos moldes europeus, em contraponto ao índio local.

Para melhor entender esse meio branco e meio índio altivo em seu pedestal que pratica o comércio escravo indígena, deve-se observar que, esta sociedade apresentada está curiosamente enraizada em uma organização patriarcal fundada em laços familiares e composta de agregados de origem indígena.

São visões díspares de uma relação com os aborígines próximos, tidos como exército, funcionando como parte da rotina provedora e, miscigenado ou não, usurpador de mão de obra tirada a força das missões do sul.

São os Bandeirantes e os Entradistas que solidificam uma sociedade não produtiva em relação à sua terra, porém mercantilista em relação à venda mundial de escravos. Assim nasce São Paulo para a Coroa Portuguesa.

Os Entradistas foram de enorme valia nas descobertas de aluviões com grande concentração de ouro e até diamantes. Primeiro Taubaté, depois Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás.

Com estes adventos a migração de escravos índios e negros da cana, abastados portugueses e a mais variada sorte de mestiços amulatados oriundos de todas as partes do Brasil formam um caldeirão de interesses, jamais visto até aquela época.

Novamente a Igreja surge como organizadora social. Cada casta tinha sua própria igreja e seu calendário moldava o comportamento dos seus, mediante as festas e o cotidiano trazendo traços de civilidade às novas vilas e cidades. Após quase dois séculos de exploração voraz do solo e das minas, as cidades mais pungentes amargariam a mais descendente deterioração.

Os recantos que hoje entendemos por Sudeste, Centro-Sul, Centro-Oeste e norte da região Sul do país e compreendem essas cidades, sofrem com a evasão populacional que, sem alternativas para a manutenção de seu antigo status, são pulverizadas nos campos outrora produtivos de ouro e diamantes.

Surge o caipira, aquele povo que não mais participa do processo mercantilista e agora só produz para sua subsistência, com nacos de terra e produtos agro-pastoris, que de vez em quando serve como mercadoria de troca entre núcleos rurais.

A palavra de ordem agora é o mutirão; para abrir roçados, consertar casas e pontes ou para a parca colheita do feijão ou do arroz.

Estes caipiras estavam no limiar da pobreza, porém manteriam, mesmo sem um núcleo urbano efetivo, a dignidade não versada.

Esse quadro não distinguiria cor ou etnia, pois todos estavam envolvidos pelo mesmo modus-vivendi, incluindo a adaptação culinária e, como não havia a preocupação com a posse da terra em grandes produções exportadoras latifundiárias, as castas não se faziam tão antagônicas.

Com o surgimento dos novos cultivos comerciais de exportação como algodão, tabaco e depois o café, as regiões caipiras seriam reativadas.

Nesta altura, todos estes núcleos tanto rurais quanto urbanos, falam o Português e de alguma forma mantém contato direto com a capital, agora transferida para o Rio de Janeiro.

Na nova reorganização latifundiária, o caipira é expulso das terras que são novamente legalizadas para outras mãos, que não as deles. Entretanto, surge a possibilidade de remuneração de seu trabalho na lavoura, ou mesmo a de participar como meeiro ou terceiro no trato da terra, mas a exploração desta mão de obra aparece quase sempre como cruel, a ponto de que mesmo assalariado se comparia a toda uma leva de escravos negros, que compunham os quadros de trabalho da fazenda ou de fazendas vizinhas. Esses mesmos caipiras veriam a seguir, após a libertação dos escravos em 1888, a implacável chegada de multidões de italianos, alemães, espanhóis e poloneses como colonos nas mesmas fazendas em que trabalham, roubando-lhes seus brios e seus espaços.

Essa figura sem etnia definida é mostrada de forma caricata por Monteiro Lobato com o personagem Jeca Tatu, o que não compreende a verdade. Hoje, podemos observar o que resta deste ser com seu jeito de viver e sem lugar na atual organização produtiva, como um bóia fria, que apenas luta pela sobrevivência sem nenhuma perspectiva de engajamento.


OS GAÚCHOS, MATUTOS E BRASIS DO SUL.


Ao abrirmos este capítulo, narramos a construção das missões as quais o método civilizatório originou um povo novo que não era guarani, pois perdeu sua identidade indígena e também não era europeu porque nem seu sangue tinha.

Era um ninguém, meio civilizado e organizado no trato do boi livre, principal fonte de alimento, no plantio de subsistência e na docilidade da assimilação religiosa.

Os paulistas bandeirantes ávidos por escravos para a exportação, chegando aos campos do sul enxergam toda uma nova possibilidade real de obter lucro, porque além do escravo também conduziria o gado para as paragens mineiras, necessitadas de transporte, alimento e força motriz.

Com a destruição das Missões do Sul restaram poucos remanescentes fujões, alguns paulistas que daquelas terras se agradaram e mestiços fortuitos que circulavam próximos ao Rio do Prata.

Surge deste abandono o gaúcho que disputa cabeças rodeadas de gado, cria cavalos e os domestica com habilidade e, por fim, laça e domestica muares para carga.

Nestas terras de ninguém com reses de ninguém, esse homem colherá seu sustento em plantações de cunho de subsistência e ao longo do tempo tratará o boi em pé, que se tornaria mais lucrativo.

O trato da carne agora charqueada, o couro e a necessidade de marcação de corredores de terras organizaram ao seu modo esta economia pastoril.

Com a chegada dos açorianos no litoral do Sul e regiões dos povos das Missões, Pelotas, Laguna, Campanha do Ibicuí e, ao sul, Coxilha Grande reforça a presença lusa na região, já que a metrópole tem grande interesse na região e os embates com os espanhóis são constantes.

A maior parte do contingente do exército brasileiro se concentra nesta parte fronteiriça do Prata, já que ainda não há uma demarcação definitiva da geografia.

Novamente o mercantilismo ordena o povoamento e as demarcações; todos os esforços são voltados para a garantia da terra e da produção.

Os açorianos chegam subsidiados para a região. São concedidos sesmarias, ferramentas, sementes e animais para estes se assentarem. Entretanto, como produzir se não há para onde escoar a produção? O projeto torna-se um retumbante fracasso. Eles se voltam para a pesca e para atividades de subsistência passando a se chamar matutos. Sua passividade será posta a prova quando das guerras Cisplatinas e sua valorosa ajuda compreende a criação de postos de apoio na retaguarda das campanhas.

O Sul da vacaria e da mestiçagem consolida-se. As primeiras levas de gringos chegam à região: são italianos, alemães, poloneses, japoneses que prosperarão sob o signo do conhecimento no trato da terra e principalmente de uma cultura acima da média para o homem do campo.


DESTINO NACIONAL.


Os imigrantes assentados no Sul e Sudeste implantam métodos industriais e semi-industriais para a maximização da produção. A industrialização dos grandes centros continua a atrair imigrantes da maior parte do país, principalmente nordestinos para quem sabe seguir o sonho de enriquecer.

O Brasil hoje é fruto de fusões de etnias aliado a uma não identidade direta com as matrizes e aí se incluem os imigrantes mais recentes, que optam por abraçar o país como pátria com seus descendentes, obviamente nascidos aqui e que honram sua terra natal, e incorpora em si mesmos o olhar das diferenças como iguais e se posicionando como aglutinadores da nação, por sua Língua, seu modo de pensar e viver, sem desconsiderar os fatores ecológicos de suas regiões e formações étnicas diferenciadas. Na visão utópica de Darcy Ribeiro, um dia plasmados seremos um só povo sem cor nem etnias, seremos brasileiros.

O maior exemplo desta afirmativa está na nossa maior festa popular, o Carnaval e dentro desta, o Desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro que leva consigo o título de maior espetáculo da terra.

A Estação Primeira de Mangueira, sendo tradução e sinônimo direto para Escola de Samba e Carnaval é o exemplo vivo dessa história. Basta dar uma pequena olhada em seus eventos, em seu desfile: uma massa humana que congrega em seu corpo um bocado dessa gente mestiça e pura, na maioria do Rio de Janeiro, mas que abraça os ?de fora?, dos mais variados recantos do Brasil. Reflete de maneira inequívoca o pensamento do antropólogo Darcy Ribeiro, quando assim como o país absorve em seu seio estrangeiros que serão "assimilados" e que, por sua vez, assimilam a alegria de estar envolto pelo Samba, fantasiado de criatividade em verde e rosa, participando um pouco que seja desta delirante utopia de igualdade que nos é tanto cara.

Nosso país se fez de sofrimento, pés descalços fincando-se no chão, misturando-se matrizes e variantes étnicas, lutando para conhecer-se e reconhecer-se como brasileiros, para si e para o mundo. Aprendemos ao longo de cinco séculos que conhecendo e praticando, primeiro a Língua Portuguesa que se impôs e nos aculturando de tudo o que está na nossa história e nos nossos costumes tão variados, podemos nos definir como nação em crescimento e eterna renovação.




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